Jaqueline Naujorks

Não Sou Obrigada t2f5x

Assédio terceirizado e a conivência dos inocentes 4v3i5q

Você é pai de menina? Ama suas irmãs? Honra sua mãe? Então senta aqui que a gente precisa conversar sobre um assunto que vai te deixar desconfortável a4k39

Na última semana, não se falou em outra coisa nas redes sociais: a expulsão de dois integrantes do BBB por assédio. Vi de tudo nesses dias, desde homens vitimizando os caras até mulheres dizendo que a culpa era da moça por ter bebido e “se insinuado”.

O único lado bom dessa história foi que a cena aconteceu em uma casa lotada de câmeras e, finalmente, conseguimos PROVAR o que sempre cai no limbo do “não é bem assim”.

Você é pai de menina? Ama suas irmãs? Respeita sua esposa? Honra sua mãe?

Então senta aqui que a gente precisa conversar sobre um assunto que vai te deixar desconfortável. É como uma injeção: dói, mas é por um bem maior.

Imagem mostra braço feminino com a frase não é não.
(Foto: Hypeness/Reprodução)

Vou começar contando uma história que, apesar de lúdica, é 100% real.

Recebi pelo Instagram um relato que fez até meu café azedar. Quando li, senti aquele arrepio na espinha que a gente sente assistindo filme de terror, só que pior, porque no filme, pelo menos, você sabe que boa parte é ficção. Neste caso, não. É real e acontece o tempo todo.

O cenário é uma empresa qualquer. Três homens estão reunidos num ambiente. Lá adiante, vem vindo a colega de trabalho, vestida com calça jeans, camisa de uniforme e um salto médio. Um figurino estéril, o dress code de milhares de outras mulheres nesse país em dias úteis.

A colega se aproxima, distraída, segurando algumas folhas de papel rumo à sala do diretor. Seu caminhar é normal, o decoro natural do ambiente de trabalho, mas nem o recato profissional da colega foi suficiente para impedir o diálogo a seguir:

– Essa fulana é uma gostosa, né? Olha essa bunda!

– Pegar eu quero, só não tenho oportunidade (risos).

– Se eu pegasse essa mulher, ela ia ver o que é machismo do bom (mais risos).

– Olha os peitos dela na camisa! Olha lá, olha lá, fulano!

Fulano, o terceiro elemento, está claramente incomodado.

– Uai, fulano? O que foi? Não gosta de mulher, não?

– Gosto, mas tenho uma esposa e não gostaria que ela fosse tratada assim.

Os outros dois riem.

– Eu sou homem, cara! A gente faz isso mesmo! O que é bonito é pra se olhar, olha lá, olha que delícia!

Fulano pensa na esposa, que trabalha em um escritório e é a única mulher numa equipe de sete homens. Ele poderia simplesmente sair, mas resolve responder:

– Se você é um homem, por que se comporta como se fosse irracional? Você não tem esposa? Não tem filha? Não tem mãe?

Um silêncio desconfortável se segue.

– Então você é fruta! (os outros dois riem e saem andando tranquilamente).

O nome disso é assédio terceirizado.

Não foi feito PARA a mulher, mas SOBRE ela. Com terceiros.

E o que isso tem a ver com BBB, expulsão e comoção?

Vamos um o mais fundo nessa conversa. Por que esse comportamento é naturalizado? De onde dois caras tiraram a ideia de que podem ar a mão no corpo de uma mulher, esteja ela bêbada ou não, ou forçá-la a beijar? A aceitar uma proximidade?

É agora que vem a injeção:

Do mesmíssimo lugar de onde vem o comentário sobre a bunda da sua esposa. São os mesmos caras que vão comentar sobre os seios da sua filha de 18 anos que é estagiária no escritório. A menina que você em casa chama de “princesa”, na firma será chamada de “gostosinha”. Sua irmã vai ar levando os documentos pra sala da patroa e será medida de cima a baixo e um colega vai dizer: “Essa eu perdia meia hora no banheiro”.

Sua mãe que estará na fila do banco vai virar alvo de chacota de algum homem dizendo que ela já deve ter dado um caldo. Sua colega que te apoiou em dias difíceis no trabalho vai ar no corredor e um cara vai dizer que ela engordou, mas ainda está boa de comer. E você será o covarde que não vai abrir a boca para contestar porque afinal, isso é coisa de homem.

Desconfortável, não? Tem mais. 96h6i

Sua sobrinha, sua afilhada que está nas fotos de mesversário com você, amanhã vai estar na faculdade. Ela vai beber, vai dançar funk e um cara vai achar que isso é um convite. Quando ela foi ao banheiro, ele estará esperando na porta. Vai agarrar a menina e ela vai dizer não. Ele não vai acreditar, porque, na cultura machista, “uma mulher dizendo ‘não’, quer dizer ‘sim’, mas está pedindo que você insista”. Qual a chance dessa cena terminar em importunação sexual? Em estupro?

Esse texto não terá um final elaborado. Quero te deixar só com esse mal-estar embrulhando seu estômago, quero te mostrar o que o machismo normaliza e como seu silêncio volta na forma de assédio a uma mulher que você respeita, mas outro homem não.

A gente precisa deixar um mundo melhor para as meninas.

Só a mudança de cultura vai proteger sua princesa de viver o que todas nós já vivemos na rua, no ponto de ônibus, no barzinho, no local de trabalho.

Acabo de te dar um bom ponto de partida e um motivo para começar.

FALE COM O PP 1318p

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Não Sou Obrigada, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

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